A história de Waldemar Zaclis, ex-jogador romeno do São Paulo

Zaclis, o primeiro de pé na esquerda: Ele fez parte do time que fez
Zaclis, o primeiro de pé na direita: Ele fez parte do time que fez “a moeda cair de pé”. A foto é da estreia de Leônidas no São Paulo, em 1942, com público de 70 mil pessoas: o maior da história do Pacaembu

Em 1918, Telenesti era parte da Romênia, quando a região da Bessarábia estava unificada ao Estado romeno (na chamada Romênia Maior, 1918-1940), mas hoje é um pequeno município da República da Moldávia, com menos de 10 mil habitantes. Lá, em 24 de abril daquele ano, a 88km da capital Chisinau, nascia Waldemar Zaclis, que seria, entre 1938 e 1944, um importante zagueiro do time do São Paulo. Durante e depois da carreira de jogador, Waldemar faria carreira na advocacia.

O pai, Carlos Zaclis, possuia uma pequena propriedade rural e era presidente da Cooperativa de Agricultores de Telenesti. Com sua esposa, Clara, e seus seis filhos, Carlos vivia uma vida tranquila economicamente. Numa região de esmagadora maioria judia, Mas por causa dos estragos causados pela Primeira Guerra Mundial e o temor geral por novos conflitos, a família Zaclis veio para o novo continente, mais precisamente, ao Brasil.

Zaclis jogou no São Paulo de 1938 a 1944
Zaclis jogou no São Paulo de 1938 a 1944

A princípio, apenas Carlos foi a São Paulo, sozinho, para trabalhar e trazer Clara e as crianças ao Brasil em 1924, quando Waldemar tinha apenas seis anos. Assim, eles mudaram seus nomes para versões brasileiras. “Ele respeitava a Romênia, porque ali foi a terra em que nasceu e o lugar em que seus pais viveram; entretanto, seus vínculos com a Romênia eram frágeis porque o local em que vivia era habitado eminentemente por judeus, de tal modo que ele sequer teve oportunidade de aprender a língua romena. Tanto que falava ídiche com seus pais, parentes e amigos”, explica um dos filhos de Waldemar, o advogado Roberto Zaclis, em entrevista a’O Craiovano.

A família se estabeleceu no bairro Bom Retiro, em São Paulo, e Waldemar passou a jogar, desde pequeno, nos campos de várzea das redondezas. “Ele foi levado ao São Paulo Futebol Clube por um senhor que era professor no Bom Retiro, chamado Barros”, explica. A carreira profissional do zagueiro “moldavo-romeno-brasileiro” começou em 1938 e durou pouco, só até 1944, quando jogou por poucos meses no Comercial de São Paulo-SP e no Palmeiras, que na época ainda era o Palestra Itália.

Zaclis foi um jogador importante na campanha do tricolor no título paulista de 1943, jogando com o xará Waldemar de Brito, o ponta-direita Luizinho e o eterno Leônidas da Silva. Aquele Paulista de 1943 ficou conhecido como aquele em que “a moeda caiu em pé”. Até então, Corinthians e Palestra Itália praticamente revezavam os títulos do campeonato estadual, e torcedores dos dois times diziam que o São Paulo, que não era campeão paulista desde 1931, só levaria o título se a moeda (do cara-ou-coroa)  caísse em pé. “A moeda caiu em pé em 1943 e continuou caindo muitas e muitas vezes”, afirma o filho de Waldemar, Roberto, com orgulho.

Em 1993, o São Paulo resolveu fazer uma festa comemorativa dos 50 anos do campeonato em que a moeda caiu em pé. O clube instituiu a “Ordem da Moeda”, homenageando principalmente os jogadores de 1943 e os jogadores tricolores que tinham se tornado campeões do mundo naquele ano. Waldemar e sua família estiveram presentes, e o então advogado teve o seu reconhecimento. A paixão pelo futebol dividia espaço com o ping-pong, esporte no qual foi várias vezes campeão paulista, e com a paixão pelo Direito, carreira que Waldemar acabou seguindo e até passando a alguns de seus filhos e netos. O zagueiro, apelidado de “polaco” e “judeu”, conciliava estágios na área com a carreira de jogador, e se formou em Direito pela USP, em 1945, ainda aos 27 anos.

Umas das histórias que Roberto Zaclis mais curiosas de ouvir do pai foi em um dia de folga de jogador, quando Waldemar estava com um amigo no Pacaembu. “Era um jogo entre Portuguesa e outro time. Sentaram-se na arquibancada e, lá pelas tantas, um torcedor da Lusa, sentado logo à frente, e que vibrava intensamente, começou a ficar nervoso com o jogador de defesa do time adversário porque, a seu ver, estaria entrando duro num atacante da Portuguesa. Na vez seguinte em que o beque pegou na bola, ele gritou com seu sotaque tipicamente português: ‘É um cavalo, parece o tal de Zaclis’. O amigo do meu pai quis interferir, mas esse disse para ele deixar barato. Só que o torcedor voltou à carga no jogada seguinte em que o beque interveio, arrematando: ‘Vai entrar duro assim na sua casa. Parece o tal de Zaclis’. Aí o amigo não aguentou, cutucou o torcedor, e quando esse se virou, disse, mostrando meu pai: ‘Esse aqui é o Zaclis’. O português olhou para o meu pai e meio que sem jeito exclamou: ‘Mas o senhor é meio brutinho, hein?’, conta Roberto.

Em 21 de março de 2004, 85 anos após sua migração de Telenesti para São Paulo, e depois de fazer história no São Paulo, conquistar títulos de tênis de mesa e constituir uma carreira notável na advocacia nos direitos comercial e civil, Zaclis faleceu, mas o “judeu” romeno-moldavo segue eterno na memória de um dos maiores clubes brasileiros, tendo feito a moeda cair de pé.

O convite do São Paulo a Zaclis para receber a “Ordem da Moeda” (fotos: Roberto Zaclis/Arquivo pessoal)

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