Divagações em meio aos destroços

A Romênia foi derrotada por Montenegro por 1×0 em Podgorica e está fora da Copa do Mundo pela quinta vez consecutiva. Quinta. Em 2018, a distância para o último jogo da Națională em mundiais, aquela derrota para Croácia nas oitavas-de-final, será de eternos 20 anos.

Andone e Maxim são dois dos principais jogadores da fraca geração romena. Esforço tem, qualidade não.

No futebol de clubes, a Romênia talvez já esteja começando a sair do fundo do poço, a passos de tartaruga com cãibras. Não nas copas europeias, mas nas divisões nacionais, com clubes tradicionais que ensaiam retornos gloriosos à Liga I. No futebol de seleção, falando de seleção romena, o fundo do poço foi atingido em 4 de setembro de 2017.

Não pela derrota para Montenegro, que se tornou uma seleção razoável. Mas porque a seleção romena foi eliminada com duas rodadas de antecedência, apresentando um futebol muito mais pobre do que o de vários clubes da primeira divisão romena. Joga contra Cazaquistão e Dinamarca em outubro apenas por amistosos. Num grupo acessível, composto por Polônia, Dinamarca, Montenegro, Armênia e Cazaquistão, a Romênia jamais esteve perto de conquistar coisa alguma.

Ficar fora da Copa do Mundo de 2018, por fatores lógicos que são visíveis para o mais cego dos torcedores, é normal. Tornou-se normal. A geração é fraca. Não é que os jogadores não têm raça, eles têm. É possível ver, a cada jogo, que eles se esforçam. Mas não têm de onde tirar o talento necessário para serem fração do que seus antecessores foram. Há sim talentos razoáveis, mas que nunca poderão mudar a história de um jogo contra potências mundiais. Há sim lampejos de habilidade, de técnica, de criatividade. Mas não passam de lampejos. Não há nenhum Dumitrescu, nenhum Gică Popescu, nenhum Bölöni, nenhum Lucescu, Dumitrache. Muito menos Dobrin, Hagi e Balaci. Nem mesmo Mutu ou Chivu, líderes de uma geração perdida, têm concorrentes. Dobrin nos anos 70, Balaci nos 70/80, Hagi nos 80/90, Mutu nos 2000. É 2017, quem é o grande craque destes últimos sete anos? Stanciu? Alibec? Budescu? Andone? É triste.

A Romênia pagou pelo próprio viralatismo

Após o vexame na Eurocopa 2016, a Romênia passou a acreditar, mais do que nunca, que não tem técnicos competentes o bastante para comandar a seleção. E além do mais, os mais bem cotados, como Dan Petrescu, Cosmin Olăroiu e Mircea Lucescu não queriam ir pra Națională. As pessoas queriam um técnico estrangeiro. E como romenos em geral estavam cada vez mais fãs — fãs é uma palavra muito fraca —, e cada vez mais pagando muito pau e babando muito ovo de alemães e ingleses, o presidente da FRF, Răzvan Burleanu, trouxe logo após a Euro 2016 o alemão Christoph Daum e seu bigode de respeito. Sim, a expressão “pagar pau” seria a mais próxima da realidade mesmo.

Christoph Daum teve boa parte do seu sucesso nos anos 90. Conquistou a Bundesliga e a Supercopa da Alemanha em 1992 com o Stuttgart. Na Turquia, venceu copa em 1994 e liga em 1995 com o Beșiktaș. Em 2003 foi campeão austríaco com o Austria Viena. E pelo Fenerbahçe, foi bicampeão turco em 2004 e 2005, além de ter conquistado a Supercopa em 2009. Bom currículo. Não treinava um time desde 2014, quando saiu do Bursaspor. Ou seja, para todos os efeitos, era um técnico vitorioso que começava a entrar num declínio natural. Um Felipão, um pofexô Luxemburgo. Besteira, os alemães sabem muito de futebol, qualquer um deles pode fazer nosso time funcionar.

Christoph Daum em sua apresentação, em julho. O alemão entrou no Titanic romeno

Risos. Ou choro.

O viralatismo romeno foi cobrado com juros e correção. No cargo desde 7 de julho de 2016, Daum acumulou 3 vitórias (duas contra a Armênia e uma no amistoso de 13 junho contra o Chile), 3 empates (1×1 com Montenegro em casa, 0x0 com o Cazaquistão fora e 0x0 contra a Dinamarca em casa) e 4 derrotas (duas contra a Polônia, 3×0 e 1×3, 1×0 contra Montenegro e 1×0 contra a Rússia em amistoso).

Além do péssimo desempenho e de resultados desesperadores, como empatar sem gols com o Cazaquistão, Daum sofreu com o amadorismo da imprensa romena. Passou entrevistas coletivas respondendo a uma mesma pergunta: “Você vai se demitir?” Levou ataques e ofensas de todas as formas de uma imprensa livre há 28 anos, que jamais aprendeu com os seus erros e que batia até na geração de Hagi. Sofreu com a pressão desde que assumiu o cargo. Logo após os primeiros maus resultados, o mesmo vira-lata que dizia que os romenos não tinham capacidade de treinar a própria seleção diziam que o alemão não conhecia a realidade do futebol romeno nem o perfil do jogador romeno, que um bom técnico do país poderia resolver. E pior, sem perceber a hipocrisia do discurso. Daum frequentemente perdia a paciência e batia de frente com os torcedores fanáticos travestidos de jornalistas, enquanto a minoria dos sensatos não conseguia fazer o contraponto no mesmo volume. Com tudo isso, o alemão se deu muito mal.

Daum não foi oficialmente demitido, mas já se fala no retorno de alguns figurões como Pițurcă, de milionários acomodados no Oriente Médio há anos, como Olăroiu, e até de outro saco de pancadas da imprensa romena: Hagi.

O romeno de Schrödinger, ou de “Schröndingescu”, é patriota/vira-lata. Agora é patriota. No futebol romeno, o equilíbrio é tão ou mais raro do que uma classificação para as grandes competições.

Um fio de esperança no futuro

Enquanto a seleção romena é um desastre e os clubes do país seguem sem muito progresso nas copas europeias, há um time no futebol masculino dando motivos para o torcedor sonhar: é a seleção sub-21, do técnico Daniel Isăilă. Aquele mesmo (sic), que conquistou Copa e Supercopa da Romênia com o Astra Giurgiu em 2013-14, os dois primeiros títulos do clube e de sua carreira.

A Romênia sub-21 possui jogadores interessantes, que atuam tanto no exterior quanto no país. O mais conhecido é, sem dúvida, Ianis Hagi. O meia de 19 anos é filho de Gheorghe Hagi, carrega a 10 da seleção e atua na base da Fiorentina, enquanto luta pra se firmar no time principal. Jogadores como George Pușcaș, do Benevento-ITA, Florinel Coman, do Steaua/FCSB, Alexandru Pașcanu, do Leicester e Marco Dulca, do Swansea City, são destaques. As eliminatórias para a Eurocopa sub-21 começaram neste ano. Os romenos venceram Liechtenstein, Bósnia e Herzegovina e hoje empataram com a Suíça em 1×1. O grupo tem ainda Portugal e País de Gales. Apenas o campeão do grupo se classifica, e os quatro melhores vices dos nove grupos disputam repescagem.

Eliminações, decepções e maldições

Os fracassos e vexames da seleção romena ao longo do Século XXI

14 de novembro de 2001 foi o marco zero, o começo do fim. A Romênia caía diante da Eslovênia na repescagem e voltava a ficar de fora de uma Copa do Mundo, algo que não acontecia desde 1986. Em 2003, a Romênia fica fora da Eurocopa, após empatar com a Dinamarca na última rodada do Grupo 2. Um gol marcado por Martin Laursen aos 50 minutos do segundo tempo destruiu a moral de uma geração que não era melhor que as de décadas anteriores, mas que tinha potencial. E pôs uma pressão gigantesca.

Para a Copa do Mundo de 2006, um empate com a Armênia fora de casa, no meio das eliminatórias, foi crucial para deixar o time de Mutu e Chivu em 3º, num grupo que teve Holanda com a classificação direta e aquele bom time da República Tcheca na repescagem. Mais uma vez, como em 2001 e 2003, coisas de detalhe. Coisas do azar. Coisas do futebol. Era reflexo da decadência que causou a ruína atual? Era. Mas ninguém parecia notar.

A classificação com sobras para a Euro 2008 não deu nem para o cheiro. Cair num grupo com as finalistas da Copa de 2006, Itália e França, e com a Holanda, foi fatal. A eliminação veio com a derrota para a Holanda por 2×0, após os empates com Itália e França.

O único momento comparável à desgraça atual foi entre 2008 e 2011. Nas eliminatórias para 2010, o alerta vermelho foi ligado. A Romênia ficou na frente apenas das Ilhas Faroe, num grupo que tinha ainda Sérvia, França, Áustria e Lituânia. E depois, a Națională volta a ficar de fora da Euro, perdendo a vaga na repescagem para a Bósnia sem nem lutar de igual para igual.

Para o meu desespero, a Romênia bateu na trave para chegar no Brasil em 2014. A repescagem contra a Grécia expôs todas as fraquezas de um time fraco e envelhecido. Não havia perspectivas de melhora num futuro próximo. Afinal, o futuro próximo é feito dos dias atuais, e todos nós sabemos o que aconteceu.

E todo mundo sabe que, no fundo, a Romênia não merecia estar na Eurocopa 2016, a primeira com 24 seleções. O grupo tinha Grécia, Hungria, Irlanda do Norte, Finlândia e Ilhas Faroe. Teve a sorte de pegar a Grécia no pior ponto de sua crise, e ainda se classificou em segundo lugar, atrás da Irlanda do Norte. Uma classificação aos trancos e barrancos. Era esperado que, na hora H, naquele grupo com França Suíça e Albânia fosse possível uma classificação para as oitavas da Euro. Afinal, os quatro melhores terceiros colocados se classificavam. Após uma boa atuação na abertura contra a França na derrota por 2×1, o empate com a Suíça em 1×1 comprometeu os planos. Era vencer ou vencer contra a Albânia. E a Romênia conseguiu perder para a Albânia. Para a Albânia. Gol de Sadiku aos 43′ do primeiro tempo numa saída desastrosa de Tătărușanu.

Antes as classificações escapavam por questão de detalhe, do azar, da decisão do juiz. Agora é puramente por falta de capacidade técnica. E isto é muito mais difícil de corrigir.

 

 

As gurias

Vale a nota, que será melhor explorada em outros posts. O Olimpia Cluj, maior clube de futebol feminino na Romênia, chegou aos 16-avos-de-final da Champions League, após terminar em 1º lugar do Grupo 2, com Hibernians-ESC, Kharkiv-UCR e Swansea City-GAL. Vai enfrentar o Rosengard-SUE, ex-time de Marta.

2 comentários em “Divagações em meio aos destroços

  1. Dizem que a culpa dessa fase è o conturbardo cenario do futebol local, com times em constante insolvencia, dirigentes atrapalhados, e pir aí vai. Eu sinceramente descarto essa ideia. Pode atrapalhar, pode, mas sem duvida nao é a resposta. É o treinador? Aí já se começa a dividir as maiores fatias de culpa. Numa seleção com poucas vezes onde o tecnico era estrangeiro, daum já entrou pressionadissimo. E fora isso, visivelmente ve-se um treinador ultrapassado e com convocações e escalações super equivocadas. Agora, na minha visão, a maior parte desse fracasso, a pessima geração de jogadores. Muito limitados tecnicamente. Vejam, o maior clube defendido pir um jogador da atual seleção é o napoli,no casi i zagueiro chiriches, que é reserva. De resto, jogadores em times inexpressivos da turquia, times da belgica,e do futebol loca, onde hoje nao é parametro pra nada. Um ou outro em uma grande liga, mas em times medios pra pequenos. Realmente um problema quase sem solução: daum nao tem uma boa mão de obra qualificada, e os que tem de melhorzinhos ou não são chamados ou escalados. Provavelmente vão trocar o daum (e tem que trocar mesmo, pelo menos pra mudança de ares). E aí, quem entra? Contra? Petrescu? Algum antigo, como olaroiu? E será que vão fazer media, tendo que convocar atletas das principais equipes locais, pra ninguem fazer beicinho? Acho que as mudanças ja tem que ser ja para o jogo do proximo mês. Na minha humilde opinião daria chance ao cosmin contra. E mais, há uma necessidade de mudança de estilo de jogo. Minha equipe titular, pra tentar dar inicio pra um proximo trabalho. Tatarusanu, benzar, chiriches,gardos,tosca,marin,stanciu, maxim,budescu, alibec, puscas. Um 4-1-4-1,aí daria pra stanciu e budescu juntos. Os laterais mais posicionados na defesa, e stanciu buscando jogo, como um volante,alibec caindo pelos lados e puscas como um legitimo centroavante .

  2. Pra mim, que acompanho o futebol da romenia desdeca copa de 90 (claro que com toda a precariedade da epoca, né, sem tv a cabo, internet…)é realmente lamentavel. Em 90, vagamente me lembro de romenia x urss,em 94 vi todos os jogos (contra a colombia era um revezamento entre o jogo e a novela que minha mãe via,em emissoras diferentes. Em 98 só nao vi o jogo contra a tunisia. La se vão vinte anos da tricolori numa copa do mundo. Essa eliminatoria eracum grupo acessivel? Sim, mas acredito que nen mesmo os romenos apostavam na vaga. Vamos ver o que o futuro nos reserva. Por hora, torcemos pelo nosso brasil (ja torci mais pela seleção canarinho, em tempos de taffarel, aldair, branco, bebeto e romario era demais), e pelo flamengo,futuro tetra da copa do brasil…kk. Pra terminar,hai romania, hai romania, ole, ole, ole…

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