Facut in Brazilia: A jornada de Jô Santos até sua mágica estreia na Romênia

Em tempos de transferências cada vez mais absurdas que tratam o milhão como centavo, e em que Neymar troca o Barcelona pelo Paris Saint-Germain ao custo de 222 milhões de Euros, dezenas de outros brasileiros espalhados por toda a Europa buscam seu espaço e a estabilidade necessária para viverem uma carreira digna, plena e, por que não, com muito dinheiro, títulos e até um pouco de glamour.

Na primeira divisão romena, hoje, são oito: Gustavo (Craiova), Walace (Juventus Bucareste), Júnior Morais (Steaua/FCSB), William de Amorim (Steaua/FCSB), Erico (Astra), Eric de Oliveira (Viitorul), Marquinhos (Astra), Rivaldinho (Dinamo). Nas divisões inferiores, também há brasileiros, como o veteraníssimo Roberto Ayza, do Mioveni. Aliás. Eram oito brasileiros na primeira divisão. Hoje são nove. Porque há cerca de duas semanas, chegou Joálisson Santos Oliveira, o Jô Santos, na CSM Politehnica Iași.

A Politehnica Iași foi fundada em 2010, mas carrega o legado do clube homônimo que foi fundado em 27 de abril de 1945 e extinto em 2010. O antigo é um time médio no país, sem títulos de maior expressão além dos seis conquistados na segunda divisão. A nova Poli Iași, na verdade, está melhor. Tem dois títulos da segunda divisão e uma participação na Liga Europa. E vamos combinar, para os torcedores acaba sendo o mesmo clube de sempre.

Jô Santos veio do Sheriff Tirașpol, o time mais vitorioso da Moldávia, para a Poli Iași. Chegou à Romênia acompanhado de sua esposa, grávida de três meses. “Aonde eu vou ela me acompanha sempre”, explica. A estreia do brasileiro foi no Dia dos Pais, 13 de agosto de 2017. E não poderia ter sido mais emocionante: no Estádio Emil Alexandrescu, em Iași, diante de sua torcida, que havia comparecido em peso. O adversário era o Dinamo Bucareste, um dos clubes mais fortes e tradicionais da Romênia.

Mas o técnico Flavius Stoican decidiu deixar o brasileiro no banco. E aos oito minutos do primeiro tempo, o eslovaco Adam Nemec abre o placar para o Dinamo.

São nove minutos do segundo tempo quando Stoican tira Andrei Sin e coloca Jô Santos para estrear. Junto com o brasileiro, entra o ugandês Kizito no lugar do português Pedro Mendes. Stoican, que nunca foi técnico de ponta nem na Romênia, talvez tenha feito as melhores alterações de sua carreira naquele momento.

Aos 29 minutos, Nedelcearu, zagueiro do Dinamo, foi expulso. A Poli Iași aproveitou a vantagem. Aos 34′, o meia caboverdiano Platini (sim, é o apelido de Luís Carlos Almada Soares) erra um cruzamento, o zagueiro Frăsinescu recupera e a bola volta. Platini cruza, Jô Santos desvia de cabeça. A bola não vai ao gol, mas cai nos pés de Kizito, que fuzila na entrada da pequena área. 1×1.

Já aos 40′, o norueguês Qaka é expulso por uma falta dura em Rivaldinho. Agora, são dez para cada lado. E quando se achava que o time da casa poderia se retrair e se contentar com o empate, o que aconteceu foi justamente o contrário. A Poli começa a partir para cima do Dinamo, como se dependesse de um gol para salvar a temporada ou se classificar para uma próxima fase. Mas era a sexta rodada do Romenão.

Era 48′ do segundo tempo quando o impossível aconteceu. Kizito recebeu lançamento pela direita, aproveitou a falha da defesa e foi em direção à quina da grande área. Jô, que havia acompanhado o contra-ataque, pede o passe e é atendido. Kizito cruza, a bola ainda passa por Hanca, que não consegue interceptar. Jô Santos domina e bate na saída do goleiro Penedo. 2×1, de virada, no último lance do jogo, na estreia do brasileiro, para cair nas graças da torcida.

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Jô Santos se emociona em seu gol decisivo pela Politehnica Iași, poucos meses depois de se recuperar de uma grave lesão (foto: site oficial Poli Iași).

O Craiovano bateu um papo com Jô Santos, o mais novo brasileiro no futebol romeno, para resgatar a sua trajetória. O camisa 11 da Politehnica Iași falou sobre seu início de carreira, a confusão de sua primeira contratação em Portugal, sua passagem pela Moldávia (uma prima próxima da Romênia) e seu novo desafio, que já começou muito bem. De Campina Grande até Iași, a carreira do atacante de 26 anos já tem muita história.

O Craiovano: Quando você começou a jogar e como veio a oportunidade de sair do Brasil? Você saiu cedo de Campina Grande, não?
Jô Santos: Sim, sai de Campina Grande com 13 anos de idade para jogar na base do Santos, acompanhado de um amigo, Dudu Medeiros. Depois voltei para Campina Grande para assinar meu primeiro contrato profissional, com o Campinense Clube. Fiquei mais ou menos um ano no Campinense, e depois fui para a base do Vitória, onde fiquei mais dois anos. Em seguida fui para o Rio Preto-SP jogar a Série A2 [do campeonato paulista]. Depois de mais ou menos dois anos lá comecei minha jornada na Europa.

O Craiovano: Então você estreou como profissional pelo Campinense.
Jô Santos:
Sim, fomos campeões paraibanos [em 2008]. 

O Craiovano: Como surgiu a oportunidade de jogar em Portugal?
Jô Santos: Um empresário de São Paulo veio falar comigo após um jogo da A2, e me apresentou a um dirigente do Paços de Ferreira. Ele perguntou se eu queria ir jogar lá, e eu disse que sim, então rescindi com o Rio Preto e assinei um contrato com o paços de Ferreira por 2 anos. Chegando lá eu fiquei um mês e depois me disseram que eu teria que ir para o Tondela, porque não tinham dado entrada no contrato que eu havia assinado. Enfim, fui enganado. E acabei indo para o Tondela [em 2012].

O Craiovano: Como assim? Simplesmente não oficializaram o seu contrato?
Jô Santos: Mandaram a passagem para mim, estava tudo certo, na minha cabeça estava já assinado com um bom clube da primeira divisão de Portugal. Fui recebido como reforço para a temporada pelo Paços de Ferreira, tenho até foto da apresentação com outros jogadores. O treinador na época era o Paulo Fonseca, que está hoje no Shakhtar [Donetsk]. Quando um jogador chega em Portugal para assinar contrato com alguma equipe, ele precisa ser acompanhado do advogado do clube para validar o contrato, e eu não fiz nada disso assim que cheguei lá. Só fui saber depois de ter sido enganado. Mas não cheguei a ficar sem clube, graças a Deus!

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As boas atuações pelo Zimbru despertaram o interesse do rival Sheriff.

O Craiovano: Você ficou três anos em Portugal. Como foi sua passagem lá?
Jô Santos: Disputei a Segunda Liga em Portugal, meus dois primeiros anos no Tondela foram de muito aprendizado. Joguei alguns jogos, mas no Freamunde foi onde me formei mesmo como jogador, mais maduro, joguei quase 50 jogos na temporada. Marquei poucos gols, mas taticamente evolui bastante.

O Craiovano: Porque você decidiu sair de Portugal e ir para a Moldávia?
Jô Santos: Decidi ir para o Zimbru porque é um bom clube na Moldávia. E me apresentaram um projeto de evolução, que no caso era a oportunidade de jogar uma Champions League ou Liga Europa.

 

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O bicampeonato moldavo, ao fim da temporada 2016-17.

O Craiovano: Mas você acabou saindo do Zimbru antes de chegar lá, e foi para o Sheriff.
Jô Santos: Sim, não terminei a temporada no Zimbru. Cheguei em junho de 2015 e fiquei lá até dezembro.

O Craiovano: Deve ter sido uma experiência diferente, sair de Portugal onde o idioma é o mesmo que o nosso e ir para um país como a Moldávia.
Jô Santos:
 Minha adaptação foi muita rápida no Zimbru  tínhamos mais estrangeiros de Portugal e brasileiros, então foi fácil. E a língua que se fala em Chişinău é romeno. É um pouco parecido com o português em algumas palavras. Fiz sete gols em 12 jogos no Zimbru.

O Craiovano: Mas você notou que em Tirașpol, com o Sheriff, era diferente, né? Há toda uma questão envolvendo a Transnístria, separatismo, influência russa…
Jô Santos: Foi tudo muito diferente, pois lá em Tirașpol a língua é russo, porque meio que pertence aos russos lá. Existe até até fronteira entre Tirașpol e Chișinău. Uma fronteira e duas línguas diferentes no mesmo país. Mas fui para pra jogar e e esse era o meu foco! Aprendi a falar o russo. Não sou fluente, mas sei falar bem. Mas tive uma grave lesão no meu melhor momento no Sheriff, em maio de 2016. Sofri uma entrada maldosa [do zagueiro Vasile Jardan, à época no Academia Chișinău, em partida pela Copa da Moldávia. Jô Santos teve uma ruptura dos ligamentos cruzados do joelho. O Sheriff chegou a prestar homenagens ao brasileiro.] e fiquei mais de 9 meses para voltar a jogar. E lá no clube não tinha fisioterapeuta, então eu tive que ficar indo para a Itália, onde fui operado, para ser examinado.

O Craiovano: Você foi bicampeão moldavo e conquistou a Copa da Moldávia nesta última temporada. Por que você não ficou no Sheriff?
Jô Santos: Não fiquei no Sheriff por motivos simples. Comecei a temporada nos amistosos como titular, e então o técnico me disse que eu não estava bem fisicamente e arrumou desculpas para não me colocar. Enfim, ele não foi correto comigo, foi realmente mau caráter. Com a diretoria eu não tinha nenhum problema, o presidente e o diretor não queriam deixar que eu saísse, mas eu vi que eu precisava sair de lá pois com aquele treinador eu não ia ter oportunidade. E tomei a melhor decisão da minha vida.

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Jô Santos agradece o carinho da torcida em Iași com o time. “Me sinto em casa. Cidade boa, clube bom”. (foto: site oficial Poli Iași).

O Craiovano: E assim você chegou à Poli Iași?
Jô Santos: O dono da Poli Iași entrou em contato comigo em junho, disse que me queria aqui, e o treinador da Poli [Flavius Stoican] me ligou, falou comigo pessoalmente para eu vir, pois sabia que se eu viesse iria me dar muito bem aqui. Naquele momento eu não queria, pois estávamos disputando a qualificação da Champions. Quando eu vi que o treinador não contava mais comigo, aceitei a proposta da Poli Iași, e eles entraram em contato com o Sheriff para eu ir por empréstimo. No início o diretor do Sheriff não aceitou, mas depois que fomos eliminados da Champions eles finalmente me deixaram vir por empréstimo de um ano. E hoje estou muito feliz aqui.

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A comemoração do gol da virada, aos 48′ do segundo tempo: estreia inimaginável (foto: site oficial Poli Iași).

O Craiovano: E o jogo contra o Dinamo? Esperava ir tão bem assim na estreia, com um gol e uma assistência?
Jô Santos: Realmente, nem nos melhores sonhos eu imaginava! (risos) Mas acredito que Deus faz tudo no tempo certo!

O Craiovano: Você chegou a trocar alguma ideia com o Rivaldinho?
Jô Santos: Trocamos uma ideia sim. Conheci ele ontem no jogo. O Rivaldinho é uma ótima pessoa, já trocamos telefones e nos identificamos bastante. Aqui na Poli temos mais quatro jogadores que falam português [os caboverdianos Platini e Tiago Almeida, o português Pedro Mendes e o guineense Eridson]. Estou me sentindo em casa aqui. Cidade boa, clube bom. Enfim, só tenho a agradecer a Deus e à minha família por estar comigo sempre.

O Craiovano: Valeu, Jô! Estarei acompanhando. Parabéns! Muito obrigado pela entrevista e muito sucesso sempre.
Jô Santos: Maravilha, amigo. Muito obrigado! Vamos jogar contra o Astra neste fim de semana. Abraço!

 

Assista aos melhores momentos de Politehnica Iași 2×1 Dinamo Bucareste. O gol de Jô Santos está em 4’15.

A série Facut in Brazilia traz entrevistas com os brasileiros que atuam na Romênia ou que já passaram por clubes romenos ao longo da carreira. Além de Jô Santos, foram entrevistados: Roberto Ayza (duas vezes), Vinicius FabbronRomario Pires, Guilherme Sityá, Erison BaianoJorginho Mesqueu, Jean Chera e Simão Ayres. Além destes jogadores, o volante Madson foi entrevistado, mas para o documentário Craiova versus Craiova.

Colaboração: Carmen Mandis – jornalista Dolce Sport

Foto-destaque: politehnicaiasi.ro

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