A última mágica do futebol romeno

Que o futebol romeno cai pelas tabelas e se encontra em frangalhos há pelo menos uma década, já não são tão poucos que sabem. Que a seleção romena, após a Euro 2000, não conseguiu mais nada espetacular e nem surpreender ninguém como um dia fizeram as gerações de Dobrin, Balaci e Hagi, muitos já sabem. Mas que nos anos 2000, justo no meio da seca e de um período lastimável do futebol romeno, duas equipes escreveram seus nomes na história com feitos inéditos, quase ninguém sabe. E foi há 11 anos.

Com equipes tradicionais sumindo da noite pro dia nas mãos de empresários corruptos e milhões de torcedores órfãos ou perdidos, nunca mais se viu o Universitatea Craiova amedrontando a Fiorentina e ameaçando o Benfica, o UTA destruindo o campeão Feyenoord, o Arges vencendo o Real Madrid ou o Steaua campeão europeu sobre o Barcelona. Mas na era de decadência e fracasso que acometeu os clubes romenos a partir da queda do Comunismo, surge uma temporada peculiar. Em pleno século XXI, dois clubes se enfrentaram nas quartas-de-final de uma competição europeia. Algo inédito mesmo nos áureos tempos. Eram Steaua e Rapid, Copa da UEFA 2005-06, na última mágica do futebol romeno.

O evento é especialíssimo. Na década de 90, a única vez que um clube romeno chegou ao segundo semestre da temporada em uma competição foi em 1993, quando caiu nas quartas da Copa dos Campeões de Copas para o Royal Antuérpia, da Bélgica. Depois disto, apenas na Copa da UEFA de 2004-05, quando o Steaua treinado por Walter Zenga caiu nas oitavas para o Villarreal. E finalmente, em 2006, Rapid e Steaua deram esperanças e um gostinho do que foi os anos 70 e 80. Não à toa foram batizados de UEFAntásticos na Romênia naquela temporada 2005-06.

A temporada 2004-05 do Romenão (então Divizia A) terminou com o título do Steaua, por um ponto de vantagem em relação ao vice, Dinamo. O Rapid fechou o pódio e o Universitatea Craiova foi rebaixado pela primeira vez em sua história, após 41 anos consecutivos na elite. Logo, o trio grande de Bucareste estaria todo em competições europeias na temporada seguinte. Steaua na Champions League, Dinamo e Rapid na Copa da UEFA.

Mas o Steaua cai na última fase preliminar da Champions League, para o Rosenborg, da Noruega, após eliminar o Shelbourne, da Irlanda. No que parece ser mais uma temporada de eliminações prematuras os ros-albastri vão para o grupo C da Copa da UEFA, após vencer os noruegueses do Valerenga por 6×1 no placar agregado. Começava o melhor Steaua daquela década.

Dinamo: goleada histórica e a pipocada nos grupos

O primeiro adversário dos Cães Vermelhos foi o Omonia Nicósia, do Chipre. Vitória por 3×1 no Stefan cel Mare e derrota por 2×1 em Nicósia garantiram a classificação para enfrentar o Everton, na última fase antes dos grupos.

Em Bucareste, o Dinamo destruiu os ingleses. Um sonoro 5×1. Claudiu Niculescu abriu o placar aos 27 do primeiro tempo. Yobo empatou três minutos depois, mas no segundo tempo, foi só Dinamo. Ianis Zicu, Florentin Petre, e Florin Bratu fecharam o baile e a conta. Na volta, derrota por 1×0 com gol de Tim Cahill.

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Após a goleada em cima do Everton, as expectativas sobre o Dinamo nunca mais foram atendidas (foto: Getty Images)

O Dinamo chega ao grupo F, com Olympique de Marselha, Levski Sófia, Heerenveen e CSKA. Naquela época, eram oito grupos com cinco clubes cada, que se enfrentavam em turno único. Logo, eram quatro jogos para cada um. Os três primeiros se classificavam.

E o então campeão da Copa da Romênia decepcionou. Zero a zero com o Heerenveen em casa, derrota por 1×0 para o Levski em Sófia, vitória simples sobre o CSKA no Stefan cel Mare. Na hora de beliscar a vaga, os Cães Vermelhos perderam para o Olympique de Marselha por 2×1. O Dinamo ficava para trás, em último lugar. Na temporada seguinte, conquistaria o seu último título do Romenão.

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O Rapid de Daniel Niculae (centro) foi a última grande geração do clube.

O Rapid copeiro e o duelo entre pai e filho

Se o Dinamo tinha um esquadrão com Petre, Daouda, Bratu, Niculescu, Tamas e Moti, o Rapid não deixava por menos. O esquadrão que contava com Daniel Niculae, Emil Dica, Coman, Maldarasanu, Buga e o veteraníssimo Viorel Moldovan precisou começar da primeiríssima fase preliminar, eliminando o Sant Juliá, de Andorra, com dois 5×0. Na fase seguinte, acaba com os macedônios do Vardar Skopje. 3×0 no Giulesti com dois gols de Daniel Niculae e 1×1 em Skopje.

Na última fase preliminar, chega um verdadeiro teste para o time comandado pelo técnico Razvan Lucescu, filho do lendário Mircea Lucescu. Chega o Feyenoord.

Em Roterdã, Kuyt abre o placar encobrindo o inexplicavelmente adiantado Coman aos 40 da primeira etapa. Aos 30 do segundo tempo, Vasilache invade a área e dribla Greene, que escorrega e coloca a mão na bola, cometendo um pênalti patético. O próprio Vasilache cobra para empatar.

Já em Bucareste, logo aos 12 minutos de jogo, a zaga holandesa falha, a bola sobra para Buga, que finaliza, e no rebote, manda de cabeça pro fundo do gol e classificar o Rapid ao grupo G, com Stuttgart, Shakhtar, PAOK e Rennes.

Após a vitória por 2×0 sobre o Rennes no Giulesti, o Rapid enfrenta o Shakhtar num jogo curiosíssimo em 24 de novembro de 2005. O técnico Razvan Lucescu teria que enfrentar seu pai, Mircea, em Donetsk. À época, Mircea Lucescu estava há um ano no clube que treinaria por 12. E no Rapid, ele havia conquistado a Copa da Romênia em 1998.

Esta partida, com este clima todo especial terminou com vitória do filho sobre o pai com um golaço. Após escanteio curto na esquerda, o meia Marius Maldarasanu dá uma caneta em Duljaj, avança, invade a grande área e bate sem ângulo. A bola ainda desvia na zaga antes de estufar as redes do goleiro Lastuvka aos 43 do segundo tempo. Era a derrota de Mircea Lucescu e do Shakhtar que tinha Razvan Rat, Flavius Stoican (o menos famoso romeno do time), e os brasileiros Elano, Fernandinho e Jadson. Mas toda a família Lucescu seguiria junta para o mata-mata.

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Razvan Lucescu é parabenizado pelo pai após o jogo contra o Shakhtar: Um duelo histórico (foto: ProSport)

Maldarasanu também é quem marca o gol da vitória sobre o PAOK em Bucareste. Na última rodada, a primeira derrota do Rapid naquela Copa da UEFA. Partida encerrada em 2×1 para o Stuttgart, na Alemanha, com dois gols de Mario Gomez.

Não era nada. O Rapid Bucareste estava classificado na primeira colocação do grupo G, empatado em 9 pontos com Shakhtar e Stuttgart.

Diferente de Dante na Copa de 2014, o Rapid realmente conhecia os alemães após a derrota para o Stuttgart. Contra o Hertha, nos 16-avos-de-final, os romenos vencem em Berlim com gol de pênalti de Valentin Negru, e em Bucareste, Niculae e Buga garantem a classificação para as oitavas, onde enfrentariam outro clube alemão: o Hamburgo.

Na ida das oitavas, em Bucareste, a dupla Niculae e Buga marca os 2×0. Mas, em Hamburgo, houve sufoco. Lauth e Barbarez empatam no placar agregado já aos 36 minutos de jogo. Mas no início do segundo tempo, Buga marca o gol fora de casa de que o Rapid tanto precisava. Van der Vaart faz 3×1, e os romenos estavam a apenas um gol da eliminação e a apenas meia hora das quartas-de-final. O sufoco passou, e o Rapid também. Era a primeira vez que o clube fundado em 1923 chegava tão longe numa competição continental. E passou pelo desconhecido para enfrentar justamente seu tão conhecido maior rival. Vinha o Steaua.

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Dica e Oprita comemoram: o Steaua daquela Copa da UEFA foi um genial ponto fora da curva (foto: Getty Images)

Steaua, o arrasa-quarteirão

Nicolae Dica, George Ogararu, Mirel Radoi, Mihai Nesu, Petre Marin, Sorin Ghionea, Dorin Goian, Victoras Iacob, Banel Nicolita. Você pode nunca ter ouvido ou lido nenhum destes nomes antes. E é uma pena que não tenha ouvido. Foi um dos melhores times da história do Steaua Bucareste, que não temia nenhum adversário e impunha respeito aos estrangeiros como raramente se viu desde o fim do Comunismo na Romênia.. Talvez apenas o time de 2012-13, que só foi parar contra o Chelsea (e ainda assim, vencendo o primeiro jogo) nas oitavas da Liga Europa seja minimamente comparável.

O grupo C da Copa da UEFA 2005-06 era formado por Steaua, Lens, Hertha Berlim, Sampdoria e Halmstad, da Suécia. Na primeira rodada, 4×0 contra os franceses do Lens no Ghencea. Iacob e Goian começaram a conta, Dica fechou com dois gols. Contra a Sampdoria, 0x0. De volta a Bucareste, 3×0 no Halmstad. E fechando a fase de grupos, novo 0x0, contra o Hertha Berlim, que em três jogos contra clubes romenos não venceu nenhum.

Chega o Heerenveen nos 16-avos. O time holandês abre o placar em casa aos 24 minutos. O Steaua nem se abala. Dica empata aos 29. E aos 31 e 33 do segundo tempo, Goian e Paraschiv encaminham a classificação para as oitavas. Em Bucareste, o gol de Bruggink (o mesmo que havia aberto o placar na Holanda) aos 40 do segundo tempo não é suficiente para nada.

O Steaua está nas oitavas, pronto para pegar o Real Bétis. Em Bucareste, o placar não mexe, mas no Benito Villamarin, mexe com força. No segundo tempo, Nicolita, Iacob e Nicolita de novo fazem 3×0 em Sevilha e colocam o Steaua nas quartas-de-final. É como se aqueles anos 80 do título e do vice da Copa dos Campeões estivessem retornando. Mas as quartas-de-final reservavam o adversário mais difícil do Steaua até aquele momento da campanha: o rival Rapid.

As batalhas de Bucareste

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Rada observa Nicolita comemorando seu gol com Marin, Cristea e Dica. (foto: Daniel Mihailescu / Getty Images)

O maior evento internacional protagonizado por um clube romeno desde o vice do Steaua na Copa dos Campeões de 1989 era protagonizado por dois clubes: Steaua e Rapid, nas quartas-de-final da Copa da UEFA.

Era 30 de março de 2006 quando o Giulesti lotado assistiu aos primeiros 90 minutos daquele confronto histórico. E não haviam sido completados cinco minutos de jogo quando Oprita partiu livre pela ponta direita, invadiu a área e fez o passe para Nicolita. Ele teve tempo de parar e pensar antes de bater com a perna esquerda no canto esquerdo de Coman. O gol fora de casa seria extremamente decisivo.

O Rapid empatou aos 5 do segundo tempo, após um show de horrores da defesa do Steaua. O zagueiro Ghionea tentou sair jogando e deu praticamente um passe para Mugurel Buga próximo ao escanteio direito do ataque do Rapid. O atacante passa para Ilyes, que chuta mascado. O goleiro Carlos Fernandes engole um frango clássico, mas antes que a bola ultrapassasse a linha do gol, Viorel Moldovan foi conferir e estufou as redes.

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Aos 33 anos, Viorel Moldovan é consolado pelo técnico adversário, Cosmin Olaroiu (foto: ProSport)

Estava tudo em aberto para a segunda batalha de Bucareste. Esta, no Estádio Nacional, que seria demolido no ano seguinte para a construção da Arena Nationala. Num clássico tenso, o Steaua estava fechado e o Rapid desesperado pelo gol buscando o controle do jogo que nunca obteve. Mas a chance mais clara de gol foi do Rapid. Aos 43 do segundo tempo, Ionut Stancu alçou a bola na área, o goleiro Carlos Fernandes saiu catando mosca e a bola sobrou para Emil Dica na direita. Com quatro stelisti à sua frente, ele não conseguiu fuzilar para o gol e após o chute a bola ainda desviou em Nesu. Era o Steaua a ir para as semifinais da Copa da UEFA.

Rapid e Steaua mostraram ao mundo, naquela temporada 2005-06, um lado do futebol romeno esquecido desde a Geração de Ouro. E a nível de clubes, desde os anos 80, quando quartas, semis e finais dos torneios continentais não eram um sonho absurdo. Aqueles times escreveram um efêmero e espetacular oásis na nefasta e deserta história do futebol romeno do Século XXI. E trouxeram momentos que qualquer fã do futebol romeno gostaria de ver de novo. Momentos que estão cada vez mais próximos do impossível, mas nas ruínas as pessoas ainda esperam sentadas, agarradas num fiozinho de esperança por outros times como aqueles. Por mais uma mágica.

 

EXTRA

Steaua x Middlesbrough: a melancólica amarelada

Após escrever mais uma vez a história, desta vez junto de seu rival Rapid, o Steaua parte para as semifinais da Copa da UEFA contra o Middlesbrough, que tinha o brasileiro Fabio Rochemback. Era a chance de chegar a uma final continental depois de 17 anos, quando os romenos perderam por 4×0 para o Milan na Copa dos Campeões em 1989.

Em 20 de abril de 2006, o Steaua deu o primeiro e grande passo rumo à grande final em Eindhoven: No Estádio Nacional de Bucareste, Ogararu cobra um lateral longo para a entrada da grande área. Radoi recebe e dá um passe de primeira para Nicolae Dica, que dentro da área gira e manda uma bomba através do único espaço possível, sem chances para o goleiro.

Uma semana depois, na Inglaterra, os romenos dão mais um grande passo rumo à final. O baixinho Petre Marin manda um torpedo de fora da área aos 18 do primeiro tempo, Brad Jones bate roupa e mais uma vez Dica marca para o Steaua.

Seis minutos depois, escanteio para o Steaua. Goian cabeceia, Jones defende, a zaga erra na hora de afastar e a bola sobra nos pés do mesmo Goian, mas dessa vez o zagueiro romeno não perdoa e amplia. Os romenos dão mais um grande passo rumo à final da Copa da UEFA.

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De quatro (a dois) o Steaua cai após o poder lhe subir a cabeça. Os romenos param de jogar aos 30 do primeiro tempo e recebem uma aula do Middlesbrough.

Mas os romenos achavam que já haviam chegado lá.

Começa, neste momento, a meia-volta e os passos para trás.

Maccarone recebe livre pela direita e diminui para o Boro aos 33.

Aos 18 do segundo, bola alçada na área, o goleiro Carlos Fernandes sai muito mal do gol e Viduka empata. 

Aos 27, a bola quica livre pela área ocupada por seis jogadores do Steaua e o goleiro. Carlos Fernandes defende o chute como pode, mas Riggott vira o jogo no rebote.

O Steaua ainda está se classificando para a final por causa dos gols fora de casa.

Até que, aos 43 do segundo tempo (sim, de novo aos 43), o Steaua erra na saída de bola e Balan domina mal. Hasselbaink arranca pela ponta esquerda, cruza e Maccarone fuzila de cabeça.

E foi este o final nojentamente triste da espetacular campanha do Steaua na Copa da UEFA 2005-06.

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O italiano Maccarone voa para fazer o quarto gol e acabar com o sonho do Steaua
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