O “craiovano” Angelo Niculescu morre aos 93 anos e deixa um legado inigualável ao futebol romeno

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Niculescu é o inventor do tiki-taka reconhecido pela FIFA, mas não pelo mundo

Angelo Niculescu faleceu no último sábado, aos 93 anos, na sua residência em Bucareste, e foi sepultado hoje. Este nome pode não ser muito conhecido do leitor brasileiro, mas Niculescu, natural da cidade de Craiova, foi um dos grandes treinadores da história da Romênia, com uma carreira repleta de títulos e que deixou legados importantes para o futebol mundial.

Foi técnico da seleção nacional de 1967 a 1972, sendo um dos responsáveis pela classificação romena na Copa do Mundo de 1970, quebrando um jejum de cinco mundiais sem a participação dos tricolorii. O que menos gente ainda sabe é que Niculescu classificou a Romênia para a Copa do Mundo com o que hoje chama-se de tiki-taka, frequentemente atribuído ao Carrossel Holandês de 1974 e ao Barcelona e que a FIFA atribui a Niculescu. Com passes curtos e rápidos, mas demorando para partir ao ataque, seus times tinham um estilo inovador que posteriormente modificado e aperfeiçoado por estas equipes.

Niculescu em 1970: a Nationala vai à Copa depois de 32 anos
Niculescu em 1970: a Nationala vai à Copa depois de 32 anos

Angelo Niculescu nasceu em 1º de outubro de 1921, em Craiova. Sua carreira começou em 1939-40, como jogador, no FC Craiova (sem nenhuma relação com o Universitatea Craiova, fundado em 1948). Chegou a conquistar a primeira divisão romena em 1943-44, mas o título não é reconhecido atualmente, devido à Segunda Guerra Mundial que estava em andamento. Em 1945, foi para Bucareste, onde fez os seus trabalhos mais conhecidos como técnico. Jogou ainda pelo Carmen Bucareste e pelo Ciocanul Bucareste. Em 1948, foi fundado um time que seria dos mais vitoriosos e famosos da Romênia: o Dinamo Bucareste. Niculescu foi ser um dos pioneiros daquela equipe, jogando até 1950, quando se aposentou aos 29 anos.

Foram três meses de pausa no futebol até retornar como técnico, no Dinamo. Foram seis passagens pelos Câinii Rosii: 1953, 1954, 1955-57, 1964-65, 1965-66 e 1979-80. Niculescu treinou outras equipes tradicionais, como Brasov (1958-59), Sportul Studentesc (1973-77), Politehnica Timisoara (1977-79), Bacau (1981-82), Otelul Galati (1982-83, sua última passagem, encerrando a carreira com 62 anos) e até mesmo o arquirrival do Dinamo, o Steaua, em 1957.

E apesar das inovações, da grife e da idolatria, Niculescu conquistou poucos títulos. O primeiro deles, talvez, tenha sido o mais importante: campeonato romeno de 1955, o primeiro título nacional do Dinamo. Dez anos depois, conquistou mais um título da liga, e além de boas colocações na elite do futebol romeno, foi “só”. O grande destaque ficou por conta dos anos entre 1967 e 1972, na seleção. Só naquele ano, quatro técnicos estiveram na Nationala: Valentin Stanescu, Ilie Oana, Angelo Niculescu e Constantin Teasca. Após a saída de Teasca, ainda em 1967, Niculescu assumiu e não largou o cargo tão cedo. Ele ainda revezou com Valentin Stanescu e Gheorghe Ola em várias passagens entre 1971 e 1972.

Dobrin, o craque romeno no México, foi afastado por Niculescu
Dobrin, o craque romeno no México, foi afastado por Niculescu

Em 1968, começavam as eliminatórias europeias para a Copa do Mundo de 1970. O Grupo 1 continha, além da Romênia, a Grécia, a tradicional Suíça e Portugal, sensação na Copa de 1966 com Eusébio. A Nationala havia participado das três primeiras edições do mundial, em 1930, 1934 e 1938. Mas foi só. 1950, 1954, 1958, 1962 e 1966 não tiveram a presença dos romenos. Eram cinco copas e mais de 30 anos sem os Tricolorii num mundial. Mas o jejum foi quebrado sob o comando de Niculescu. O time só perdeu na estreia, para Portugal em Lisboa, por 3×0, e depois foram três vitórias e dois empates, que garantiram a seleção no primeiro lugar do grupo. O desempenho completo do esquadrão de Angelo Niculescu no México O Craiovano contou na série România Mondiala.

Naquela Copa, a Romênia tinha Nicolae Dobrin, meia do Arges (então Dinamo) Pitesti, considerado por alguns maior que Hagi. Mas Niculescu nunca o escalou, nem contra a Inglaterra, nem contra a Tchecoslováquia, nem contra o Brasil. A estrela romena daquela época foi barrada pelo técnico por indisciplina. “Saía da concentração à noite com o [goleiro Rica] Radulescu e só voltava de manhã”, disse, anos mais tarde, à imprensa romena. Preferiu não cortar o jogador e mandá-lo de volta para a Romênia para não causar um escândalo divulgado mundialmente.

Angelo Niculescu não ganhou grandes ou vários títulos, mas revolucionou o futebol romeno, fez reinvenções que infelizmente, não foram herdadas como deveriam, e nem mesmo tem um reconhecimento fora da Romênia pelas contribuições que deu ao futebol. Muito também se devia ao seu contexto, fora de um grande centro europeu, e que ainda era fechado pelo regime comunista. Depois de 1970, a Romênia só voltaria à uma Copa do Mundo em 1990. Só chegaria à sua primeira Eurocopa em 1984. E seus trabalhos nunca foram continuados de fato. Mas ainda assim, ele será lembrado como um dos grandes ícones do futebol na Romênia.

 

 

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