O outro lado do clássico: os confrontos entre seguranças, húngaros e romenos

Seguranças da BGS detêm Ultra romeno (foto: SportNews)
Seguranças da BGS detêm Ultra romeno ferido (foto: SportNews)
Membros de torcidas organizadas e seguranças entraram em confronto em meio a espectadores comuns (foto: Gazeta Sporturilor
Membros de torcidas organizadas e seguranças entraram em confronto em meio a espectadores comuns (foto: Gazeta Sporturilor

No último sábado, Romênia e Hungria empataram em 1×1 na Arena Nationala, pelas Eliminatórias para a Eurocopa 2016, numa partida de nível técnico baixo, muitas faltas e cartões, em mais uma edição do clássico que desta vez foi marcado pela violência nas arquibancadas. De húngaros com suásticas cruzando a fronteira rumo a Bucareste até a xenofobia pré-jogo inflamada por conflitos territoriais históricos entre os dois países, o clássico tinha jogo de risco, e teve efetivo policial maior que o comum para escolta de torcedores.

incidente-1-e1413103418495-765x457
Sinalizadores foram arremessados ao gramado da Arena Nationala (foto: SportNews)

O que começou com uma troca de gritos racistas dos húngaros gritando “Ciganos”, e dos romenos gritando “Fora, fora com os húngaros do país”, durante a execução dos hinos nacionais, passou para sinalizadores atirados entre as duas torcidas e uma reação truculenta e sanguinária da BGS, empresa privada de segurança contratada pela FRF. Os incidentes são considerados pela imprensa romena como os mais graves que aconteceram em arquibancadas do país durante uma partida de futebol. Mais de 30 pessoas foram detidas e 58 pessoas foram feridas, sendo que 12 em estado grave, que precisaram ser levadas à salas de emergência e hospitais.

O estudante Andrei Otineanu estava perto das arquibancadas húngaras quando a confusão começou e afirma ter visto o início da ação da BGS. “Os húngaros começaram a atirar os sinalizadores. Um deles chegou a explodir muito perto de um amigo meu. Mas alguns rapazes começaram a jogar os sinalizadores de volta. Aí, veio a BGS”, explicou o rapaz de 20 anos a’O Craiovano.

Enquanto os Ultras húngaros arremessaram sinalizadores, Ultras romenos devolviam os artefatos para a torcida adversária, e a ação exagerada da BGS começou, com cerca de 50 seguranças agredindo desproporcionalmente os torcedores compatriotas. Segundo o site SportNews.ro, a maioria dos Ultras romenos envolvidos são de torcidas organizadas do Universitatea Cluj e do Dinamo Bucareste. Cerca de 75 policiais entraram em ação para deter torcedores e seguranças. O jogo continuou normalmente, e após a confusão, não foram registradas ocorrências nos arredores da Arena Nationala. A UEFA ainda não comunicou nenhuma punição às federações húngara ou romena.

O estudante Dragos Trifanescu, no intervalo da partida e mais calmo após o incidente (foto: arquivo pessoal
O estudante Dragos Trifanescu, no intervalo da partida e mais calmo após o incidente (foto: arquivo pessoal

O economista Mihai Mititelu*, de 35 anos, estava perto da origem da pancadaria na arquibancada. “Eu não sei se eram torcedores romenos brigando entre eles ou se alguns atacaram a BGS, mas sei que a BGS saiu batendo em todo mundo pelo caminho. Não importava se eram homens, mulheres, ou se tinham culpa de alguma coisa ou não”, conta Mihai, em entrevista a’O Craiovano. “Eu também acabei sendo afetado, apesar de estar um pouco longe no momento. Por sorte eu tinha um cachecol que foi útil para me proteger do gás lacrimogênio”. O estudante Dragos Trifanescu, de 16 anos, viu que o ataque começou a partir da reação dos Ultras romenos. “Eles chegaram a tentar invadir a área dos húngaros, e aí foi o ‘bum’. A BGS começou a jogar muito gás e partiu pra cima de quase todo mundo, não só dos ultras. Bateram em idosos, pais, filhos, todo mundo! Eu estava um pouco acima do local onde ocorreu, fiquei muito assustado.” Após a área dos Ultras romenos ter sido evacuada, os torcedores começaram a voltar e sofreram nova retaliação, que só acabou quando o atendimento médico começou a chegar.

A questão da Transilvânia

Uma das grandes questões mal-resolvidas entre húngaros e romenos se refere à região da Transilvânia, famosa por ser o local onde se passa o romance “Drácula”, de Bram Stoker. Ó território possui cidades muito importantes na cultura e na economia da Romênia, como Cluj-Napoca, Bistrita, Timisoara, Brasov, Târgu Mures, Oradea, Alba Iulia e Sibiu, e atualmente, é onde há a maior concentração húngara na Romênia (cerca de 25% da população da região.

Desde os Séculos XI, XII e XIII, a Transilvânia tem sido motivo de vários atritos entre húngaros e romenos. O mais recente deles foi na Segunda Guerra Mundial, quando a Hungria anexou quase 40% do território em 1940 e foi obrigada a devolver após Guerra, assinando o Tratado de Paris em 1947 (a questão da Transilvânia explica os vários romenos com nome e sobrenome origem húngara na seleção nacional da primeira metade do Século XX. Histórias dá época podem ser conferidas na série România Mondiala, aqui n’O Craiovano).

*Mihai Mititelu não tem parentesco confirmado com Adrian Mititelu, proprietário do FC Universitatea Craiova desde 2004

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s